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Diversidade Tropical e Conservação
Sérgio Fonseca Mattos & Lucilene Batittucci Oliveira*
John C. Briggs do Museu de História Natural da Universidade da Georgia, USA - destaca a superior diversidade de espécies nos trópicos e considera a existência de áreas de " origem evolucionária ", enfatizando a importância de um maior direcionamento das ações de conservação para essas áreas enquanto habitats, ao invés de esforços preservasionistas de espécies isoladamente.
Para a compreensão da temática abordada faz-se necessário o entendimento dos processos de transformação da superfície do nosso planeta sofridos ao longo do tempo geológico e o conceito de biodiversidade como a forma de expressão múltipla da vida na superfície terrestre .
Pangea e a deriva continental
A teoria da deriva continental foi proposta por Wegener (1924), segundo a qual os continentes já estiveram unidos em massas continentais bem maiores formando uma única área continental conhecida por Pangea(ver anexo I). Com o tempo sofreram fragmentação, afastando-se de modo que as suas formas e posições modificaram-se até atingirem as situações atuais. A crosta terrestre, segundo esta teoria, seria formada por diversas placas litosféricas(ver anexo II) rígidas separadas entre si por junções divergentes, convergentes e direcionais. Essas placas movem-se umas em relação às outras, sendo carreadas por lentas correntes de convecção existentes na astenosfera.
O clima da Terra tem sofrido, também, vários ciclos de aquecimento e resfriamento. Há cerca de 30 milhões de anos, durante o período Oligoceno(ver anexo III), o clima foi se aquecendo extendendo as áreas tropicais e subtropicais até o norte dos EUA e sul do Canadá, ficando as zonas temperadas e árticas espremidas em pequenas áreas próximas aos pólos. Nos últimos 25 milhões de anos o clima da Terra vem tornando-se mais frio e seco, o que levou à expansão das áreas árticas e temperadas, comprimindo os trópicos até as faixas atuais.
Biodiversidade
A medida mais simples da estrutura da comunidade é o número de espécies que ela possui, o qual é usualmente denominado de riqueza de espécie ou diversidade. Os ecólogos caracterizam as comunidades em função do número de espécies presentes, suas abundâncias relativas, sua alimentação e outras relações ecológicas (predação, competição,...). A estrutura e funcionamento das comunidades misturam um complexo conjunto de interações, unindo direta ou indiretamente todos os membros de uma comunidade numa intrincada teia. A influência de cada população amplia-se a partes de habitat ecologicamente distantes da comunidade: o impacto ecológico e evolutivo de uma população se estende em todas as direções através da estrutura trófica da comunidade (p/ex: aves insetívoras).
Vários índices de diversidade, notavelmente o índice de Simpson e o de Shannon - Weaver, foram elaborados para capacitar-nos a levar em conta as variações na abundância ao fazer comparações entre amostras.
Índice de Simpson: Índice de Shannon - Weaver:
D = __1__ H = - S pi log pi
S pi²
D = Diversidade
H = Idem
pi = proporção das espécies na amostra total pi = Ibidem
As fórmulas dos índices de diversidade tem parâmetros que determinam não só a quantidade de indivíduos por espécie, mas, principalmente, a quantidade de espécies, caracterizando assim a dimensão da biodiversidade.
Diversidade tropical
A superior diversidade nos trópicos é bem conhecida: aproximadamente 3/4 das espécies mundiais encontram-se confinados nos trópicos (Wilson, 1992). No ambiente marinho, fatos históricos indicam que a maioria dos grupos animais se originaram em regiões tropicais (ex.: fósseis de cetáceos encontrados no Paquistão durante o Eoceno). No ambiente terrestre, uma alta diversidade também é encontrada nos trópicos.
Existem, contudo, certas áreas dos trópicos nas quais a diversidade de espécies atingiu níveis mais altos do que o normal. Tais áreas funcionam, aparentemente, como "centros de origem evolucionária". Este fato enfatiza a importância de se destinar esforços para conter a taxa de extinção de espécies encontradas nos trópicos e a conservação dos diferentes sistemas tropicais.
O conceito de "centro de origem" é reforçado pela descoberta de taxa mais novos nas regiões tropicais, com aumento da idade em direção as altas latitudes. Sugere-se que tais gradientes representam uma adaptação a longo prazo, a latitudes mais frias por grupos antes tropicais (Briggs, 1984). Embora os trópicos marinhos possuam uma biota rica, existem variações longitudinais consideráveis. A riqueza da fauna da região Ocidental Indo-Pacífica é 2,5 vezes maior que da região do Atlântico Ocidental, 3,5 vezes maior que a do Pacífico Oriental e 7,3 vezes maior que a do Atlântico Oriental (Briggs, 1985). Esses dados foram obtidos através de trabalho de comparação de diversidade de espécies nessas quatro áreas tropicais, comprovando a existência de variações longitudinais. Em menor escala, a diversidade de espécies pode variar consideravelmente segundo fatores tais como: heterogeneidade do substrato, proximidade da costa e distúrbios físicos.
O eixo longitudinal do Indo-Pacífico Ocidental percorre quase 2/3 do globo terrestre, o que o torna um caso especial. Na maioria dos trabalhos realizados na região foi encontrado um pico de diversidade na área que se estende das Filipinas à península Malay até a Nova Guiné (Briggs, 1992). Este triângulo tem sido considerado um centro de radiação evolucionária, uma vez que o número de espécies tende a cair em todas as direções.
Através de dados com crinóides, brizoários e bivalves, Jablonski & Bottjer (1990), concluíram que os ambientes mais ricos em espécies, gêneros e famílias são geralmente locais de maior origem desses níveis taxonômicos - diversidade gera diversidade. Isso proporcionou uma evidência direta de que os trópicos são a maior fonte de origem evolucionária, e não simplesmente um refúgio que acumulou diversidade, ocasionando baixas taxas de extinção.
Briggs cita então trabalhos que evidenciam a maior diversidade de espécies nas regiões tropicais, a exemplo das famílias Pomacentridae (peixes), Strombidae (moluscos) e uma espécie de besouro (Tiger beetle), que apresentam maior diversidade nos trópicos.
Diversidade e conservação
As atividades conservacionistas mais utilizadas consistem em cercar pequenas áreas com o objetivo de afugentar espécies ameaçadas, ou preservar espécies nativas. A maioria dos parques e refúgios selvagens contém apenas pequenas frações do habitat nativo pré-existente. Desta forma fica-se restrito as limitações da relação espécie-área, que prediz que um habitat reduzido em um décimo de seu tamanho original perderá metade de suas espécies. Assim coloca-se a questão da preservação de espécies ou habitats.
A falta de uma estratégia preservacionista, científicamente aceita, aliada ao fato das grandes concentrações urbanas, próximas aos centros de origem evolucionária, continuam a priorizar a preservação das espécies raras ou incomuns. Muitas dessas espécies em vias de extinção são endêmicas, ou seja, extinguindo-se seus habitats, não terão futuro filético. Ao focar a atenção para os centros de origem, pode-se tentar preservar áreas de alta diversidade; essas áreas tem grande importância evolucionária histórica e futura.
Considerações finais
Para muitas pessoas, destaca o ecólogo Robert Ricklefs, a extinção de espécies coloca uma questão moral. Algumas tomam essa posição porque, se a espécie humana atinge com o seu desenvolvimento toda a natureza, é dela a responsabilidade moral de proteger a natureza afetada. Se a moralidade origina-se de uma lei natural, onde todos tem direito a vida, pode-se presumir que os direitos dos indivíduos e espécies não-humanos são também legítimos, tanto quando os de nossa espécie. Não se garante o direito a existência perpétua, assim como ao homem não é dado a imortalidade, mas a extinção de espécies através da caça, poluição e destruição de habitats, assim como a disseminação de doenças, pode ser análoga ao assassinato, à carnificina, ao genocídio e outras infrações aos direitos humanos que buscamos preservar.
As vezes, destaca ainda Ricklefs, pode-se questionar a conservação de um tipo de habitat através da comparação do valor econômico das espécies nativas que lá ocorrem com o valor advindo da alteração ou outro manejo do habitat. Contudo, por exemplo, o ganho de curto prazo de converter florestas em agricultura, ou de um recurso marinho excessivamente explorado, é assumido sobrepujar qualquer valor de longo prazo de conservar o sistema natural para uma receita sustentável. O valor de espécies e habitats conservados usualmente torna-se evidente quando os custos de longo prazo da sobre-exploração ou conversão do habitat são apropriadamente levados em conta, uma prática que não é encorajada pelo pragmatismo do desespero nem pela notória visão curta dos políticos.
TROPICAL DIVERSITY AND CONSERVATION - Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental, Universidade Federal Fluminense.
Sérgio Fonseca Mattos & Lucilene Batittucci Oliveira* são mestrandos do PPGCA / UFF e diretores do Instituto EcoCiência
email: ecocien@nitnet.com.br
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