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A quebra de paradigmas

Anderson José Pisaniello*    

    Quando optei por cursar a faculdade de arquitetura e urbanismo em uma pequena cidade do sul do Estado de Minas Gerais no ano de 1993, muitos de meus amigos e profissionais com que havia trabalhado, tentaram me alertar para o fato estava por tomar a decisão errada. Diziam que eu deveria estar em contato direto com os grandes centros, absorver a tecnologia dos grandes edifícios, enfim ser o mais urbano possível para que pudesse exercer minha profissão com sucesso.
    A verdade é que já me sentia completamente saturado pelo caos urbano da Grande São Paulo, e não encontrava motivos convincentes para compartilhar de toda aquela massa de edifícios, transformadores elétricos e monóxido de carbono que envolvia meu cotidiano. Sabia que esta "ordem natural" não condizia com meus ideais de vida.
    Então, mesmo sob um aparente equivoco, resolvi partir para uma região de poucos referenciais arquitetônicos, sem grandes empresas por perto, e porque não dizer, discriminadamente isolado de todo o processo de desenvolvimento urbano.
    Mas o que poucos sabiam, é que eu estava em busca dos espaços amplos e naturais, ter a oportunidade de reconhecer as formações topográficas sem a influência urbana, compreender as variações climáticas em sua essência além do contato próximo com a natureza. Enfim encontrar alternativas para a implantação de sistemas futuros.
    Neste período, gradativamente, a consciência ecológica foi se compondo em minhas ações e contribuindo para uma formação um tanto distinta daquela encontrada nos tradicionais livros de Arquitetura e Urbanismo. E assim, optei ainda na Universidade por uma temática de projetos que visassem a integração com o meio ambiente, independentemente de seu caráter urbano, rural, comercial ou industrial.
    Desta forma, passei a adotar uma nova postura frente a meus projetos e, atualmente, posso identificar inúmeros pesquisadores dotados de consistentes propostas e soluções adequadas ao meio ambiente. A grande questão é que, em direto conflito com tantas propostas viáveis para nosso país, somos obrigados à conviver com a morosidade de um grande grupo de políticos que ainda não descobriram ao menos os prazeres de seus imensos jardins.
    Muito mais que conflitos de gerações, o que presenciamos são conflitos de interesses político - partidários, que por sua vez impulsionam os conflitos de ideologia, que se traduzem em conflitos multidisciplinares, e que resultam no caos da livre expressão e na busca por um lugar ao sol à qualquer custo.
    Então, qual a alternativa para a reversão de tal processo? Talvez a resposta esteja na quebra de paradigmas. Ou seja, desprender-se de conceitos aparentemente sólidos e definidos como corretos e se permitir uma nova visão para as questões sócio - ambientais, sem que nos prendamos naquele ou em outro conceito específico da Ciência em questão. Por mais que sejamos contra as devastações ambientais em prol do crescimento territorial, isto de fato acontece e de maneira rápida e desenfreada, tornando-nos meros espectadores do sistema "Neo-evolution".
    É neste contexto que venho dar minha contribuição para aqueles que de alguma forma, estejam ligados à algum processo de planejamento, construção ou operacionalização de edificações integradas ao meio - ambiente, apresentando um breve panorama dos tópicos fundamentais para a criação de novos padrões sócio - ambientais, turísticos, comerciais e industriais.
  1 - Antes de qualquer ação é necessário que se obtenha uma foto aérea ou gerada por satélite da região onde se deseja intervir, com pelo menos três escalas de aproximação. A análise deste material, fornecerá informações sobre o Desenho Ambiental da área, suas características macro e micro regionais, fornecendo dados para o cadastro da vegetação, percursos hídricos e obstáculos naturais. E que serão confrontadas com as informações climáticas representadas pelo percurso dos ventos, temperaturas médias, umidade relativas, percursos solares, índices pluviométricos, entre outros tópicos.
  2 - Toda e qualquer ação ligada ao meio ambiente deve derivar-se de cenários prévios e não originar cenários, deve-se utilizar de uma leitura perceptiva da área em questão afim de que a edificação não sobreponha-se totalmente ao padrão da paisagem local.
  3 - Como vivemos em um país contemplado pelo sol, a maior fonte de energia renovável ao nosso dispor, o sistema de locação da obra deve ser fundamentado no estudo dos percursos solares e orientações cardinais, possibilitando um total aproveitamento da iluminação e ventilação natural, o que consequentemente significa uma redução considerável na utilização de energia elétrica dispersa com lâmpadas, aquecedores e circuladores de ar.
  4 - O projeto da edificação integrada ao meio ambiente, seja ela uma residência, um hotel, uma indústria ou um simples posto avançado de observação (chalé), deve excluir o emprego de materiais supérfluos, fazendo uso exclusivamente dos materiais fundamentais para sua construção, contribuindo assim, para um menor contraste de formas e cores, e valorizando o potencial do entorno das instalações.
  5 - Os materiais e métodos construtivos, ao contrário do que muitos ecologistas pensam e defendem, devem adotar a tecnologia de produtos e equipamentos industrializados como soluções capazes de reduzir impactos físicos, visuais e comportamentais nas eventuais áreas de implantação.
  6 - O projeto deve adotar como fonte de pesquisa, os processos artesanais das construções regionais, assim como evitar a descontextualização temática da edificação, preservando o patrimônio histórico e cultural local.
  7 - É possível se coletar, pré - filtrar e armazenar toda água pluvial das coberturas de qualquer edificação e, à estas atribuir usos impares como a manutenção da própria edificação (lavanderias, sanitários), combate à incêndios ( no caso de hotéis e resorts na mata) além do auxílio no sistema de limpeza do equipamento de tratamento de detritos ( fossas sépticas, filtros anaeróbios, sumidouros).
  8 - Utilizando-se das eco - técnicas de projeto, é possível que se apliquem soluções de bioclimatização, onde sistemas convencionais de condicionado sedem espaço para os circuladores de ar alimentados através de placas foto - voltaicas ou captadores eólicos. Para concluir vou citar a Hipótese de Gaia (Planeta Terra por Lovelock, James): "Gaia é um gigantesco ser vivo inteligente, do qual o gênero humano participa como simples células de um de seus tecidos. Gaia cria, mantém, altera e transforma o seu ambiente."

  * Anderson José Pisaniello é Arquiteto e Urbanista com atuação dirigida à projetos ambientais

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