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Caminhos
Maria Vitória Ferrari Tomé* e Luiz Eduardo F. Fontes**
Parece que o mundo se esqueceu de que o verdadeiro aprendizado deve ser uma eterna brincadeira. Crianças que brincam são adultos que trabalham e vivem felizes. A felicidade traz harmonia. Por que, então, a escola tem sido um sistema em que educadores e educandos, prontos para exercer seu verdadeiro papel, são cerceados em sua criatividade? Por que se valorizam números, em vez de pessoas, como determinantes da estatística de sucesso de aprendizado escolar? Que tipo de cidadão o sistema escolar está contribuindo para formar?
Como afirmou Suzana Pádua (A educação ambiental: um caminho para a transformação. Agência Estado, 1/8/99, Mundo Virtual. http://www.agestado.com.br/mvirtual/liana/aspas/aspas6.htm): "em face a tantos problemas graves, a própria educação formal parece ter permanecido em ritmo vagaroso demais e, de certa maneira, continua respondendo apenas à racionalidade, com ênfase na transmissão de conhecimento. Ao não incluir o lado sensível e intuitivo do ser humano, não valoriza o seu poder criativo e individual, que poderia estimulá-lo a buscar opções de vida ecologicamente saudáveis, economicamente viáveis e socialmente justas".
É preciso que sejamos livres das amarras, do preconceito, da aparência, do apelo material ao consumis-mo, do medo de não ser aprovado pela sociedade... Nessa liberdade é preciso sensibilizar-se. É preciso resgatar o exercício sensorial dos indivíduos que se tornaram eminentemente urbanos e, muitas vezes, esquecidos de que fazem parte da natureza. Nós nos esquecemos de sentir o ambiente, de refletir sobre nossos sentidos... Para que tanta correria? Onde queremos chegar? Qual será o dia em que seremos verdadeiramente felizes? Será aquele que nunca chega? Não é chegada a hora de meditar sobre o que nos faz bem ou nos faz mal? Meditar sobre o que nós queremos ou não e como faremos para mudar o que não nos agrada. Estabelecer prioridades, definir o que é essencial, importante e valioso. Isso tudo é educar-se. Educar para o convívio em casa, na escola, no trabalho, na rua, em todas as situações ou ambientes em que vivemos.
Educando-nos verdadeiramente, aguçamos nossa sensibilidade, usamos os nossos sentidos. Desta forma, estaremos fazendo uma leitura menos contaminada do ambiente e estaremos mais preparados e empenhados a participar de questões que visem um bem maior.
Há, na verdade, uma grande quantidade de pessoas desenvolvendo trabalhos socioambientais de grande relevância e altruísmo, mas é comum ficarem no anonimato. A falta de comunicação pode ser uma arma que alimenta a ignorância e a inércia. Portanto, precisamos divulgar mais o que há de bom pelo mundo afora. Saber que outras pessoas estão se dedicando a causas nobres, melhora o ânimo e estimula o entusiasmo. Segundo Selene Herculano (Selene Herculano. 1995. A consciência da solidariedade. Educador Ambiental, Ano 1, n. 8): "todos nós aprendemos com os exemplos alheios, gostamos de nos identificar e somos incentivados pelo sucesso que o outro alcançou".
No entanto, problemas ambi-entais continuam ocorrendo e são, de modo geral, comporta-men-tais, seja individual ou grupal. As mudanças parecem depender, em última análise, do âmago do indivíduo. Quando as mudanças se processam de dentro para fora, elas acabam refletindo no coletivo. Um efeito dominó passa a ser possível, o que resulta em novas visões e comportamentos mais harmônicos com o ambiente.
Muitas atitudes humanas são geradas, principalmente, pela visão imediatista e compartimentalizada que se aprende em casa ou na escola, e que cedo se incorpora aos hábitos. A sociedade moderna tem produzido indivíduos que refletem pouco sobre as causas e as conseqüências do que está ocorrendo, o que acaba interferindo negativamente nas relações ser humano/natureza.
Mudanças comportamentais, necessárias à construção de uma sociedade sustentável, não são propiciadas nem mesmo quando os indivíduos são esclarecidos por meio de dados científicos consistentes, que demonstram que suas práticas cotidianas são prejudiciais ao meio ambiente, como nos lembra Philipe Layrargues (Philipe Pomier Layargues. 1995. Como desenvolver uma consciência ecológica? Educador Ambiental, ano 1, n. 8, 1995), citando Vera Mandel. Para que serve então a Educação, se não para harmonizar o indivíduo ao seu ambiente, tornando-o um cidadão engajado no mundo em que vive? Qual é o fator deter-mi-nante para a verdadeira educação, que leve o indivíduo a agir inte-gradamente com o seu ambiente?
Entre as correntes que discutem o aspecto determinante da criação de uma consciência ecológica, afirma-se em uma delas que o aprendizado ocorre por estímulos positivos (prazer, alegria, satisfação de estar em contato com a natureza etc.). Uma outra afirma que o impacto negativo, ou seja, o choque traumático das experiências negativas, seria o fator preponderante para induzir a mudanças.
É preciso considerar, porém, que a espécie humana tem uma ampla base genética que a possibilitou sobreviver a diversas condições hostis ao longo de sua evolução. Soma-se a inteligência e o componente cultural, e essa capacidade de sobrevivência aumenta desmesuradamente. O que pode acontecer, nesse caso, é o desenvolvimento de um arcabouço de proteção e insensibilidade, levando ao comodismo e ao marasmo. Selene Herculano4 afirma que para romper esse treinamento mútuo de indiferença e individualidade deve-se salientar o comunitário e o coletivo no processo educacional. Talvez uma das respostas esteja na participação.
Quem sabe a velha questão possa ser colocada em prática: o aprendizado proporciona a compreensão, promove a sensibilização e leva à ação. A resposta pode estar na educação, não como instrumen-tali-za-ção, mas como formação de cidadãos.
A resposta pode estar, também, em cultivar o belo. Pois, como disse o poeta Babr Babr Diorum: "no final, só se conserva o que se ama. Amamos somente o que compreendemos. Compreendemos somente aquilo que nos é ensinado". Rubem Alves também chamou a atenção para a importância do belo, quando afirma: "toda a beleza do mundo anuncia o paraíso. A verdade fica guardada na cabeça. Mas a beleza faz amor com o corpo. A beleza pode seduzir o povo, fazê-lo amar a natureza, preservar a saúde, alegrar-se com as artes, cuidar das crianças, viver de forma civilizada, respeitar a vida. A ciência, coitadinha, tão cheia de pesquisas e verdades, sabe como levar o homem à Lua, mas não sabe como fazê-lo amar. A intenção da beleza é mudar o mundo!" Já em 1919, Casemiro Rakowski ( Casemiro Pakoviski, 1919. Flor de Samambaia. Lenda sobre a felicidade. Seção de obras do Estado de São Paulo".) escreveu: "a compreensão do belo é a faculdade de se ver o mundo de tal modo, que em cada partícula se veja a unidade cósmica, em cada átomo se ausculte o universo, em cada instante se pressinta a eternidade, e em cada criatura se glorifique o Criador. (...) A compreensão exata do belo é a única centelha de imortalidade que existe no homem e que o distingue do animal"
A verdadeira Educação deve contemplar o todo, incluir o belo e o natural, estimular o desabrochar do que cada um tem de melhor, a fim de que haja uma compreensão da importância da participação. A educação ambiental inclui essa preocupação: enxergar com novos olhos e propiciar mudanças que favoreçam o todo.
*Engenheira Florestal, Especialista em Biologia Vegetal, MS. em Agronomia pela Universidade Estadual de Londrina, com experiência em Educação Ambiental formal e informal, gerenciamento de projetos de conservação ambiental. Coordenadora de Educação Ambiental da Ambiente Brasil Centro de Estudos.
**Engenheiro -Agrônomo, Doutor em Solos, Professor Titular do Departamento de Solos da UFV, Coordenador de diversos projetos de Educação Ambiental, Membro da Comissão de Organização do Fórum Estadual de Educação Ambiental de Minas Gerais.
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