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Olhos de anjos

João Rafael Picardi Neto   

Ao amigo Ramon Garcia

    Viciados e anestesiados pelas luzes dos shoppings, do néon e do consumo, nossos olhos deixaram de ver as coisas mais simples do mundo. Passamos por este pequeno planeta-nave à procura do ter, do comprar, do possuir, do poder. Atravessamos, por exemplo, o viaduto da Floresta, aqui em Belo Horizonte e nem reparamos na arquitetura, na beleza daquela casa antiga e abandonada. Quem se detém olhando a elegância do casario da rua Marechal Deodoro? E este pequeno beco que nos remete diretamente para Nápoles.
    Faz quanto tempo que você não vem ao Parque Municipal para deitar o seu olhar naquele atrevido bem-te-vi?
    Falta o saber no nosso olhar. Esquecemos que o saber vem do sabor. A sabedoria deve ser saborosa como estas frutas madurinhas aqui nesta banca do mercado central.
    Vivemos num mundo poluído de caras e cartazes que nada nos dizem.
    Repare: quantas vezes você passou por aqui, pela praça Afonso Arinos e se esqueceu de reparar nos semblantes das deusas, que sumiram destes pedestais. Talvez tenha sido recolhidas por um zeloso administrador ou roubadas pelos ladrões de obras de arte.
    De olhos bem abertos, caminhe por Belo Horizonte. Subindo a João Pinheiro, a nossa acanhada Wall Street, você chegará numa das praças mais belas do mundo. Sinta aqui a Liberdade. Liberdade de olhar, reparar, de caminhar, de estar vivo. Vá por esta aléia, faça essa Travessia. Olhe lá naquele canto aquela solitária deusa.
    Veja essa fonte. Toda em mármore, tão bela como qualquer fonte do velho Mundo. Olhe bem o canteiro das azuis hortênsias. Repare ali naquela solitária rosa.
    Quando você desviou o seu olhar e deparou com esta árvore de lata? Ou com aquela que teima em sobreviver nos buracos do selvagem concreto. Ainda há coisas belas nas cidades. Em todas cidades do mundo. Beleza da natureza, belezas nascidas das mãos dos homens. Veja esses maltratados leões nesta praça da Estação. Quando você reparou que lhes roubaram os rabos?
    Falta-nos ou nos sobra um tempo? Tempo para reparar nas coisas simples, como essa florzinha que brota na calçada.
    Tempo para se assentar numa mesa daquele café ao lado do “Hoje em Dia” e trocar um dedo de prosa com velhos amigos.
    Meu Deus! O que fizemos com o nosso tempo. Teria o Arquiteto do Universo errado em seus cálculos? Qual anjo teria acelerado o ponteiro do nosso relógio?
    Não! Não nos faltam tempo e tempos.
    Falta-nos mesmo é a meiguice, o meigo olhar. Roubaram os nossos olhares infantis, os nossos olhos de anjos.


 

 


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